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ConflitosNigéria

Meninas de Chibok na Nigéria: O que aconteceu há 10 anos

Kate Hairsine
13 de abril de 2024

Há dez anos, 276 meninas foram raptadas do dormitório da sua escola em Chibok, no nordeste da Nigéria. Os raptos ainda hoje ecoam.

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Chibok assinalou o início dos raptos em grande escala na Nigéria, algo que continua a acontecer atualmente - embora haja um maior número de intervenientes envolvidos nos raptos
Chibok assinalou o início dos raptos em grande escala na Nigéria, algo que continua a acontecer atualmente - embora haja um maior número de intervenientes envolvidos nos raptosFoto: Audu Ali Marte/AFP

Na noite de 14 de abril de 2014, dezenas de combatentes do grupo militante islamista Boko Haram invadiram um dormitório escolar de meninas na remota cidade de Chibok,um pequeno enclave cristão no norte da Nigéria, de maioria muçulmana.

As 276 alunas, com idades compreendidas entre os 16 e os 18 anos, foram conduzidas sob ameaça de armas através da floresta para camiões que as aguardavam, depois de os militantes terem incendiado os edifícios da escola.

Poucas horas depois dos raptos, 57 meninas conseguiram fugir. Algumas esconderam-se nos arbustos, outras saltaram enquanto eram conduzidas durante aquela noite escura da floresta de Sambisa, que se tinha tornado o esconderijo do Boko Haram.

Uma das que conseguiram fugir contou à organização não-governamental (ONG) Human Rights Watch que um dos sequestrados perguntou às alunas no camião: "Que tipo de conhecimentos procuram aqui [na escola]? Como vocês estão à procura de uma educação ocidental, nós estamos para combater isso, e ensinar-vos os caminhos do Islão".

O nome do grupo militante, Boko Haram, é traduzido como "a educação ocidental é proibida".

Porque foi tão fácil raptá-las?

Os ataques do Boko Haram já tinham provocado o encerramento em massa de escolas na região, incluindo a Escola Secundária Governamental para Meninas de Chibok, em março do mesmo ano. O grupo iniciou uma rebelião armada contra o governo da Nigéria em 2009, com o objetivo de criar um Estado islâmico. Era conhecido pela sua hostilidade contra o ensino não islamita. 

Mas a escola estatal de Chibok abriu especialmente para as alunas que estavam a fazer os exames finais. Muitas meninas vinham de aldeias vizinhas, cujas escolas continuavam fechadas.

Apesar de o Estado de Borno se encontrar em estado de emergência, não havia soldados estacionados na escola e os dois vigias que guardavam o recinto fugiram quando os combatentes se aproximaram.

Um outro grupo de membros do Boko Haram disparou contra as 17 forças de segurança que se encontravam no centro da cidade, que foram dominadas, e depois recuaram para a floresta.

Os aldeões em pânico que viram o comboio do Boko Haram passar pelas suas comunidades a caminho de Chibok também telefonaram para a base militar em Maiduguri, capital do Estado de Borno, várias horas antes do ataque, de acordo com investigações da Amnistia Internacional e outras organizações no local. Mas os militares não conseguiram reunir tropas para percorrer os 125 quilómetros até Chibok.

Tudo isso permitiu ao Boko Haram raptar as meninas desprotegidas.

São vários os factores que fazem com que o rapto das meninas de Chibok continue a ser alvo de atenção 10 anos depois
São vários os factores que fazem com que o rapto das meninas de Chibok continue a ser alvo de atenção 10 anos depoisFoto: Sunday Aghaeze/AFP

O que aconteceu às meninas?

Pouco depois dos raptos, o líder do grupo, Abubakar Shekau, ameaçou vendê-las como escravas. Mas muitas detidas pelo Boko Haram foram obrigadas a converter-se ao Islão se fossem cristãs, a casar com os seus raptores e a dar-lhes filhos. Algumas chegaram a casar-se várias vezes, após a morte dos homens nos confrontos.

Durante alguns anos, pouco se ouviu falar das meninas, até que duas meninas foram encontradas, entre maio e setembro de 2016. Mas depois vieram várias libertações em massa, mediadas pela Cruz Vermelha Internacional, alegadamente como parte de uma troca de prisioneiros.

Desde então, foram libertadas mais de 100 meninas. Os relatos das que regressaram falam de espancamentos, fome perpétua e coisas piores. Foram mantidas, na sua maioria, em cabanas escondidas na floresta de Sambisa.

"O local onde fui mantida em cativeiro era muito mau. É algo que nunca esperámos. Sofremos lá. Tínhamos fome", disse Mary Dauda, sobrevivente de Chibok, à Amnistia Internacional.

Cerca de 82 das vítimas ainda não foram encontradas.

Que papel da campanha #BringBackOurGirls?

O governo do então Presidente Goodluck Jonathan demorou a admitir que os raptos tinham ocorrido - e foi lento para tentar resgatá-las.

Mas um grupo de nigerianos lançou a campanha na então rede social Twitter, hoje X, chamada #BringBackOurGirls. Partilhada por celebridades como a atriz de Hollywood Angelina Jolie, ou a ex-primeira dama norte-americana, Michelle Obama, a campanha explodiu, gerando indignação mundial.

A campanha nas redes sociais também desencadeou protestos na Nigéria e noutros países. Esses, por sua vez, levaram o Presidente Jonathan a prometer encontrar as meninas e a polícia a oferecer uma recompensa de 300 mil  dólares (cerca de 218 mil euros, na altura). O então Presidente dos EUA, Barack Obama, chegou mesmo a enviar uma equipa de conselheiros para ajudar os militares nigerianos nas buscas, embora as autoridades nigerianas também se mostrassem relutantes em aceitar a ajuda internacional.

Boko Haram: Rapto de raparigas de Chibok foi há cinco anos

Porque os raptos de Chibok ainda ressoam?

O Boko Haram atacou cerca de 50 escolas no ano anterior ao ataque a Chibok e raptou dezenas de crianças. Mas são vários os factores que fazem com que o rapto das meninas de Chibok continue a ser alvo de atenção 10 anos depois.

Chibok assinalou o início dos raptos em grande escala na Nigéria, algo que continua a acontecer atualmente - embora haja um maior número de intervenientes envolvidos nos raptos.

No início de março, cerca de 300 crianças foram raptadas de uma escola em Kigura, no noroeste da Nigéria (muitas das quais foram libertadas mais tarde). Poucos dias antes, 200 pessoas, na sua maioria mulheres e crianças, foram raptadas no Estado de Borno.

Além disso, a resposta indiferente das autoridades ao rapto das meninas de Chibok transformou-o num exemplo infame da incapacidade do governo federal para proteger as pessoas, na altura e agora.

São sobretudo as crianças em idade escolar que estão a sofrer as consequências. Mais de 1.680 crianças foram raptadas desde abril de 2014 até meados de 2023, de acordo com a organização humanitária Save the Children.

Só no estado de Katsina, cerca de 100 escolas foram encerradas devido à insegurança em 2023. E o medo de raptos é uma das principais motivações para as crianças da Nigéria não frequentarem a escola.

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